Uso de IA sobe 183% entre funcionários — mas isso não é maturidade de IA na empresa

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Uso individual de ferramentas de IA entre funcionários de empresas brasileiras cresceu 183% entre janeiro e agosto de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo levantamento da Luria — e o volume de consultas mensais a essas ferramentas subiu 240%. É um número que parece prova de maturidade. Não é.

O próprio levantamento é claro sobre o limite: ele mede uso, não produtividade nem redução de custo. Uma pessoa que abre um assistente de IA todo dia para resumir e-mail ou revisar um texto não está, com isso, gerando resultado que apareça em qualquer indicador de negócio — está reduzindo fricção pessoal, o que é bom, mas não é o mesmo problema que o conselho está tentando resolver quando aprova orçamento de IA. Maturidade de IA não se mede por quantas pessoas clicam num botão de IA. Mede-se pela capacidade da empresa de transformar esse uso em um processo redesenhado, com dono, métrica e resultado acompanhado desde o início — e é exatamente aí que a maioria das empresas de médio porte ainda não chegou.

Principais aprendizados

  • Uso individual de IA em alta (até 183% em 2026, segundo a Luria) não é a mesma coisa que maturidade de IA na empresa — a métrica mede frequência de uso, não resultado de negócio.
  • 40% das empresas brasileiras já investem especificamente em agentes de IA, e outras 33% planejam começar em até 12 meses, segundo a ABES/IDC — sinal de que parte do mercado já migrou de “ferramenta de produtividade pessoal” para “automação de processo com dono”.
  • A pergunta certa para a diretoria não é “quantas pessoas usam IA”, é “qual processo específico tem frequência, tempo e retrabalho altos o suficiente para justificar um agente dedicado”.
  • Programas estruturados que aplicam esse critério de priorização convertem semanas de trabalho manual em entregas medidas em semanas — não em ciclos de 9 a 12 meses.
  • Sem dono de processo e métrica definida antes do piloto, o uso individual de IA tende a ficar restrito a ganho de tempo pessoal, sem virar vantagem competitiva registrada em qualquer relatório.

O uso de IA entre os funcionários já é sinal de maturidade de IA na empresa?

Não. Uso individual crescendo é sinal de que a tecnologia está acessível e que as pessoas perceberam valor pessoal nela — isso é adoção, não maturidade. Maturidade é uma propriedade da empresa, não da soma de hábitos individuais: implica processo mapeado, dado minimamente confiável para aquele processo, responsável de negócio nomeado e uma métrica de valor acompanhada desde o piloto até a escala.

Na prática, isso significa que duas empresas podem ter exatamente o mesmo percentual de funcionários “usando IA no dia a dia” e estarem em estágios completamente diferentes. Uma usa a ferramenta para tarefas soltas, sem registro de ganho. A outra já identificou qual processo — crédito, atendimento, conciliação, validação documental — concentra o maior custo de erro e retrabalho, e está construindo ali, deliberadamente, com acompanhamento de resultado. A primeira empresa vai continuar aparecendo em pesquisas de “adoção”. A segunda vai aparecer em relatório de resultado.

Por que empresas brasileiras estão migrando orçamento de ferramenta de produtividade para agentes de IA?

Porque ferramenta de produtividade pessoal tem teto baixo de retorno mensurável — resolve fricção individual, mas não resolve o gargalo que mais custa para a empresa. Agente de IA, por definição, é construído em torno de um processo específico: ele automatiza uma sequência de decisões e tarefas que hoje consome tempo de várias pessoas, com erro e retrabalho identificáveis. É por isso que a migração de orçamento, de “licença de assistente para todo mundo” para “agente dedicado a um processo”, aparece como tendência consistente nos levantamentos recentes do setor.

Essa migração também explica por que só uma fração das empresas consegue escalar IA além do piloto: um piloto de ferramenta de produtividade não tem processo nem métrica para escalar — ele só tem mais gente usando. Um piloto de agente de IA, bem priorizado, já nasce com processo, dono e indicador definidos, o que é justamente o que falta para a maioria travar na fase de teste.

Como transformar uso individual de IA em resultado que o conselho possa medir?

Aplicando um critério simples antes de qualquer construção: frequência × tempo × retrabalho. Mapeia-se, entre os processos que já têm alguém usando IA informalmente, qual deles acontece com mais frequência, consome mais tempo por execução e gera mais retrabalho quando falha. Esse é o candidato a receber um agente dedicado — não o processo mais visível ou o mais fácil de demonstrar em apresentação.

Já vi esse critério funcionar de perto numa empresa de tecnologia de médio porte, no segmento B2B, que precisava estruturar seu portfólio de produtos de cibersegurança. A estimativa tradicional para esse tipo de trabalho — levantamento de requisitos, priorização, documentação de portfólio — era de 9 a 12 meses, com uma equipe dedicada em tempo parcial. Em vez de distribuir “uso de IA” por toda a operação, o time aplicou o critério de priorização a esse processo específico, identificado como o de maior frequência de retrabalho entre times de produto e vendas. O portfólio foi estruturado em 8 semanas. A diferença não veio de mais ferramenta — veio de aplicar a IA exatamente onde o retrabalho era mais caro, com um responsável nomeado acompanhando o indicador do início ao fim. Como em qualquer caso do tipo, os resultados refletem o contexto, a maturidade e os processos daquela organização específica — não constituem promessa de resultado equivalente em outro ambiente.

Esse é o padrão replicável: antes de aprovar mais orçamento de IA, a diretoria deveria pedir não “quantas pessoas estão usando”, mas “qual processo foi escolhido, com que critério, e qual métrica está sendo acompanhada desde o primeiro dia”.

Perguntas frequentes

O crescimento de uso de IA pelos funcionários já é suficiente para medir maturidade da empresa?

Não — uso individual mede adoção, não maturidade. Maturidade de IA exige processo mapeado, dado confiável para esse processo, responsável de negócio nomeado e métrica de valor acompanhada desde o piloto; sem esses quatro elementos, o aumento de uso tende a ficar restrito a ganho de tempo pessoal, sem aparecer em nenhum indicador de resultado da empresa.

Qual a diferença prática entre adotar ferramentas de IA e investir em agentes de IA?

Ferramenta de IA resolve fricção individual de quem usa; agente de IA automatiza um processo específico da empresa, com dono e métrica definidos. A primeira tem teto baixo de retorno mensurável porque depende do hábito de cada pessoa; a segunda escala porque nasce estruturada em torno de um gargalo real, priorizado por frequência, tempo e retrabalho.

Que métrica a diretoria deveria exigir antes de aprovar mais orçamento de IA?

Uma métrica de valor nomeada e com dono, definida antes do piloto começar — nunca inventada depois, sob pressão, para justificar o que já foi gasto. Pode ser tempo economizado por ciclo, redução de retrabalho ou erro evitado num processo específico; o essencial é que esteja amarrada a um processo, não a “quantidade de gente usando IA”.

Uma empresa de médio porte precisa de um programa estruturado mesmo se o time já usa IA no dia a dia?

Sim, se o objetivo for resultado mensurável e não apenas conveniência individual. Uso espontâneo tende a se concentrar nas tarefas mais fáceis, não nas mais caras; um programa estruturado aplica um critério de priorização explícito para direcionar o esforço ao processo que, quando falha, custa mais — e acompanha esse resultado desde o início, não depois.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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