Por que empresas que dizem priorizar IA investem tão pouco nela

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Amcham Brasil perguntou a 629 executivos de médias e grandes empresas qual é a prioridade estratégica número um para 2026. A resposta foi inteligência artificial — folga confortável sobre qualquer outro tema. A mesma pesquisa, porém, mostra que 77% dessas empresas investem até 2% do orçamento em IA, apenas 9% investem acima de 5%, e só 3% conseguiram transformar isso em nova receita ou vantagem competitiva. Prioridade número um não é a mesma coisa que investimento número um — e essa distância é o motivo pelo qual tanta empresa média testa IA sem nunca ver resultado.

O padrão se repete fora do panorama Amcham. No varejo, 98% das empresas já testam inteligência artificial, mas apenas 8% escalam com impacto real na operação. A diferença entre esses dois números não é tecnologia — é o trabalho de priorização que a maioria pula: escolher um problema de negócio específico, medir o ponto de partida e decidir, com critério, onde o próximo real vai ser investido.

Principais aprendizados

  • IA é a prioridade estratégica número um para empresas brasileiras, mas 77% investem até 2% do orçamento nela e só 3% converteram esse investimento em nova receita ou vantagem competitiva (Amcham Panorama 2026, 629 executivos).
  • O gargalo não é o tamanho do orçamento — é a ausência de critério: dinheiro aplicado sem um problema de negócio priorizado tende a virar piloto que nunca escala, não resultado medido.
  • No varejo, 98% das empresas testam IA e só 8% escalam com impacto real — a lacuna está no que acontece entre o teste e a decisão de investir mais.
  • Mapear o gargalo por frequência, tempo e retrabalho antes de aprovar orçamento reduz o risco de financiar iniciativa sem dono nem métrica de resultado.
  • Investimento maduro em IA cresce em ciclos pequenos e medidos — não em uma linha de orçamento anual aprovada sem critério de prioridade.

Por que empresas dizem que IA é prioridade e investem tão pouco nela?

Porque “prioridade” costuma ser uma resposta de pesquisa, e orçamento é uma decisão orçamentária — e as duas raramente passam pelo mesmo processo de decisão. Declarar IA como prioridade número um custa uma resposta em um questionário. Aprovar 5% ou mais do orçamento de tecnologia para IA exige um caso de negócio: um problema nomeado, um responsável, uma métrica de retorno. A maioria das empresas médias brasileiras tem a primeira parte resolvida e nunca chegou à segunda — por isso 61% delas, segundo a mesma pesquisa Amcham, não percebem impacto relevante da IA nos resultados.

Isso não é exclusividade do setor privado. No mesmo período, o governo federal reuniu ministros, pesquisadores e representantes do setor privado para tratar IA como prioridade nacional — com anúncios sobre supercomputador e soberania de dados —, mas sem financiamento, coordenação entre ministérios ou prazos definidos até o momento. O padrão se repete em escala: declarar prioridade é rápido, financiar com critério é o trabalho que separa quem escala de quem só testa.

Quanto uma empresa média deveria investir em IA?

Menos importa o percentual do orçamento e mais importa a ordem das decisões: primeiro o diagnóstico do gargalo, depois o valor do investimento — nunca o contrário. Aprovar um orçamento de IA sem antes mapear onde a empresa perde tempo, dinheiro ou qualidade é o mesmo erro, em escala menor, do investimento de 2% sem critério documentado na pesquisa Amcham: o dinheiro sai, mas não há como saber se ele resolveu alguma coisa.

Um diagnóstico simples de gargalos de negócio — priorizados por frequência, tempo consumido e retrabalho gerado — costuma apontar dois ou três processos em que um investimento pequeno e bem direcionado (semanas, não meses) já produz resultado mensurável. É a partir desse primeiro resultado, não de uma projeção genérica de mercado, que faz sentido decidir se o próximo ciclo de investimento merece 2%, 5% ou mais do orçamento de tecnologia.

Como transformar “prioridade declarada” em orçamento que gera resultado?

Com um critério de priorização documentado antes de qualquer aprovação de orçamento — não com mais ferramenta, nem com mais reunião sobre “estratégia de IA”. Na prática, isso significa três passos: mapear os gargalos operacionais por frequência × tempo × retrabalho; escolher o primeiro com o time que já existe, usando ferramentas já aprovadas pela TI; e validar o resultado (tempo economizado, erro evitado) antes de decidir escalar.

Em um programa de capacitação conduzido pela HAIA com uma equipe de cerca de 20 profissionais de uma operação de licitações e contratos, um executivo sem formação técnica construiu, sozinho, uma ferramenta para extrair automaticamente cerca de 25 campos de dados de editais em PDF — protótipo funcional em 35 minutos, com até sete dos vinte profissionais da equipe tendo parte relevante de suas atividades identificada como automatizável pela solução. Os resultados refletem o contexto, a maturidade e os processos dessa organização específica e não constituem promessa de resultado equivalente em outro ambiente — mas o padrão é replicável: o investimento que gerou resultado não foi o maior, foi o mais bem direcionado ao gargalo certo.

É esse o critério que separa os 3% que converteram IA em receita dos 77% que só reservaram uma linha pequena de orçamento sem saber, ainda, o que ela deveria resolver.

Perguntas frequentes

Quanto as empresas brasileiras estão investindo em IA hoje?

A maioria investe pouco, apesar de declarar IA como prioridade máxima. Segundo o Panorama 2026 da Amcham, com 629 executivos de médias e grandes empresas, 77% investem até 2% do orçamento em IA e apenas 9% investem acima de 5% — um descompasso entre discurso estratégico e alocação real de recurso que ajuda a explicar por que só 3% converteram o investimento em nova receita.

Por que investir mais em IA não garante resultado?

Porque o problema raramente é o tamanho do orçamento — é a falta de um critério de priorização antes de gastá-lo. Empresas que aprovam investimento sem mapear qual gargalo específico a IA vai resolver tendem a financiar pilotos soltos, sem dono nomeado nem métrica de retorno, o que explica por que 61% das empresas da pesquisa Amcham não percebem impacto relevante mesmo já usando a tecnologia.

Por onde uma empresa média deveria começar a priorizar investimento em IA?

Por um diagnóstico dos gargalos operacionais antes de qualquer aprovação de orçamento, priorizando por frequência, tempo consumido e retrabalho gerado. Esse mapeamento costuma revelar dois ou três processos em que um investimento pequeno já produz resultado mensurável em semanas — base concreta para decidir se vale ampliar o orçamento no ciclo seguinte, em vez de aprovar um valor genérico de mercado.

IA vai continuar sendo prioridade estratégica nas empresas brasileiras?

Tudo indica que sim, tanto no setor privado quanto no discurso do governo federal, que tratou o tema como prioridade nacional em agenda recente. A questão que decide se essa prioridade gera resultado não é se a empresa vai continuar priorizando IA, mas se o próximo investimento vai nascer de um diagnóstico de gargalo real ou de uma decisão orçamentária sem critério — a diferença entre os 8% que escalam e os 98% que só testam.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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