Financeiro e agro lideram ganhos com IA generativa no Brasil: o que isso ensina sobre prioridade, não sobre setor

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Financeiro e agro são hoje os setores que mais atribuem ganho real de eficiência à inteligência artificial generativa no Brasil — não por acaso, mas porque são os setores com o dado mais estruturado para alimentar esse tipo de modelo. A 28ª CEO Survey da PwC mostra 59% dos líderes do setor financeiro brasileiro atribuindo à IA generativa ganhos de eficiência, contra 52% da média nacional; no agronegócio, a expectativa de impacto da tecnologia na lucratividade saltou de 46% em 2024 para 61% em 2025, com 78% dos CEOs do setor planejando integrar IA às suas plataformas de gestão. A pergunta certa para uma empresa de médio porte fora desses dois setores não é “quando chega a minha vez” — é “qual processo da minha operação já tem o tipo de dado que financeiro e agro têm historicamente”.

Essa distinção muda a leitura mais comum desse tipo de pesquisa, que normalmente vira ranking de setor “mais avançado” ou “mais atrasado” em IA. O setor não é a causa do ganho — é um proxy de maturidade de dado. Bancos têm décadas de histórico de crédito, inadimplência e comportamento de pagamento estruturado em sistema. Operações agrícolas de maior porte têm séries históricas de clima, safra e produtividade. Os dois têm, pela própria natureza do negócio, exatamente o que a IA generativa e os modelos preditivos mais exigem: volume de dado confiável amarrado a um processo específico e repetido. Uma empresa de qualquer outro setor que tiver esse mesmo tipo de ativo — mesmo em escala bem menor — tende a reproduzir o mesmo padrão de ganho.

Principais aprendizados

  • Financeiro (59%) e agro (expectativa de lucratividade subindo de 46% para 61% entre 2024 e 2025) lideram os ganhos percebidos com IA generativa no Brasil, segundo a 28ª CEO Survey da PwC — acima da média nacional de 52%.
  • 78% dos CEOs do agronegócio já planejam integrar IA generativa às suas plataformas de gestão, um salto de intenção que acompanha o salto de expectativa de resultado.
  • O fator comum entre os dois setores não é o setor em si — é dado histórico estruturado amarrado a um processo específico (crédito e risco num caso, clima e safra no outro).
  • Apenas 48% das empresas brasileiras têm dado bem estruturado e governado, segundo a IDC — essa é a pré-condição real para ganho com IA generativa, e nenhum setor garante isso automaticamente.
  • Uma empresa de qualquer setor pode reproduzir o padrão financeiro/agro se isolar um processo específico, de alto volume, com dado confiável — escala de banco ou de fazenda não é pré-requisito.

Por que financeiro e agro relatam mais ganho com IA generativa do que a média nacional?

Porque os dois setores chegaram à IA generativa já com o dado organizado que o modelo precisa para funcionar bem — não porque adotaram a tecnologia antes ou investiram mais em marketing de inovação. Um banco já tinha, antes do hype de IA generativa, anos de histórico de pagamento, inadimplência e comportamento de crédito estruturado em sistema, pronto para treinar e validar modelo. Uma operação agrícola de porte médio a grande já acumulava séries de clima, produtividade por talhão e ciclo de safra. Em ambos os casos, o gargalo clássico de qualquer projeto de IA — dado disperso, incompleto ou não confiável — já estava parcialmente resolvido antes da ferramenta generativa chegar.

Isso é diferente de dizer que esses setores são “mais inovadores”. A TOTVS, ao descrever a IA como “infraestrutura de negócio” para 2026 no varejo e na indústria, aponta o mesmo padrão por outro ângulo: o ganho concentra em previsão de demanda e recomendação de produto — funções que também dependem de histórico de venda bem estruturado. O critério que decide o resultado é sempre o mesmo, independente do setor: existe dado confiável, específico, amarrado a um processo de alto volume? Onde essa resposta é sim, o ganho aparece mais rápido. Onde não é, a ferramenta generativa entrega resposta de qualidade variável, e o resultado medido demora a aparecer — ou não aparece.

Minha empresa, fora do financeiro e do agro, precisa esperar para ver retorno com IA generativa?

Não precisa, e esperar pelo “momento do setor” costuma ser o erro mais caro dessa equação. O critério que separa quem converte IA generativa em resultado não é o código do setor na classificação CNAE — é a existência de um processo específico, de alto volume, com dado confiável para alimentar o modelo. Esse processo pode ser bem menor do que uma carteira de crédito inteira ou uma série histórica de safra regional.

Em um programa de capacitação conduzido pela HAIA numa operação de educação/licitações de médio porte (equipe de cerca de 20 profissionais, sem área de desenvolvimento própria), um executivo da área de negócio construiu, sem escrever código, uma ferramenta para extrair cerca de 25 campos de editais de licitação em PDF — documentos repetitivos, estruturados em formato previsível, que a equipe já processava manualmente todos os dias. O protótipo funcional ficou pronto em 35 minutos, e a estimativa interna é que até 7 dos 20 profissionais da área tinham atividades automatizáveis por essa mesma lógica. O ativo que fez a diferença não foi escala de banco nem histórico de década — foi um processo específico, repetitivo e com formato de dado previsível, construído por quem já conhecia o problema. Como em todo case do tipo, os resultados variam conforme o contexto, a maturidade e os processos de cada organização; não constituem promessa de resultado equivalente em outro ambiente.

O que decide, na prática, se um processo converte IA generativa em resultado medido?

Três elementos, replicáveis em qualquer setor: um processo nomeado (não “a empresa toda”), dado confiável específico para aquele processo, e uma métrica de valor definida antes do piloto começar — não inventada depois para justificar o gasto. O critério prático de escolha é priorizar por frequência × tempo × retrabalho: qual atividade se repete com mais frequência, consome mais tempo por execução e gera mais retrabalho quando sai errado.

O dado da IDC — apenas 48% das empresas brasileiras têm dado bem estruturado e governado — explica por que a maioria fica presa em “aplicação pontual” mesmo depois de comprar a ferramenta certa: falta exatamente o que financeiro e agro já tinham antes do hype, que é dado organizado amarrado a um processo. Resolver isso não exige comitê de dados nem reestruturar a empresa inteira. Exige escolher um processo, nomear quem responde por ele, confirmar que o dado daquele processo específico é confiável, e medir o antes e o depois com o mesmo critério.

Perguntas frequentes

Minha empresa precisa estar no setor financeiro ou no agro para ter retorno com IA generativa?

Não. O setor só correlaciona com ganho porque, historicamente, financeiro e agro acumularam dado estruturado amarrado a processos de alto volume — crédito e risco num caso, clima e safra no outro. Qualquer empresa com um processo específico, repetitivo e com dado confiável pode reproduzir o mesmo padrão, em escala proporcional ao seu porte.

O que significa “dado estruturado” na prática para quem não é banco nem operação agrícola?

Significa informação organizada, consistente e amarrada a um processo específico — não a base de dados inteira da empresa. Um cadastro de clientes padronizado, um histórico de atendimento categorizado ou um conjunto de documentos em formato previsível já servem como ativo de dado, desde que confiáveis para aquele processo escolhido.

Quanto tempo leva para ver um resultado medido com IA generativa?

Depende do processo escolhido, mas casos de escopo restrito — como extração de campos de documentos repetitivos — podem gerar protótipo funcional em minutos a poucas horas, com validação de resultado em semanas. Processos amplos ou com dado disperso levam mais tempo, porque a etapa de organizar o dado vem antes de qualquer ganho de IA aparecer.

Comprar uma ferramenta de IA generativa já resolve esse gargalo de dado?

Não. A ferramenta processa o dado que a empresa já tem; ela não organiza um histórico disperso nem decide qual processo priorizar. A pesquisa da IDC mostra exatamente esse ponto: 95% das empresas brasileiras já usam alguma ferramenta de IA, mas menos da metade tem dado governado o suficiente para confiar no resultado que ela devolve.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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