A IA chegou à mineração e à siderurgia. A governança chegou junto?

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Resposta direta: não, pelo menos não na maioria dos casos. Uma pesquisa da HRTech divulgada em agosto mostra que 68% das empresas brasileiras já têm metas formais de IA neste ano — o dobro do registrado em 2025 — e que a adoção chegou pela primeira vez a setores como mineração, siderurgia, indústria química e hospitais. Ao mesmo tempo, um levantamento da Deloitte Brasil mostra que 87% dos executivos brasileiros acreditam que a IA vai impulsionar receita e 95% planejam adotar agentes autônomos em até dois anos — mas apenas 27% das empresas do país dizem ter um modelo de governança maduro para sustentar isso, número praticamente empatado com a média global de 21%.

O problema não é a meta. É que setores que nunca precisaram de uma política de dados para IA — porque nunca tiveram IA — estão adotando na mesma velocidade de quem já testa a tecnologia há anos, sem o mesmo acúmulo de estrutura. Ter uma meta formal de adoção não é o mesmo que ter capacidade de sustentar essa adoção com segurança. É a distância entre esses dois pontos que decide se a IA vira resultado ou vira o próximo incidente de governança.

Principais aprendizados

  • 68% das empresas brasileiras já têm meta formal de IA em 2026, o dobro de 2025, com a adoção chegando pela primeira vez a setores como mineração, siderurgia, indústria química e hospitais.
  • 87% dos executivos brasileiros esperam que a IA aumente receita, mas só 27% das empresas do país têm governança madura para sustentar agentes autônomos — gap quase idêntico ao da média global (21%).
  • Setor novo em IA não significa empresa despreparada para tecnologia: significa, em geral, ausência de política de dados e de responsável nomeado especificamente para o risco que a IA introduz.
  • Governança eficaz para empresa média não é montar uma área de compliance de IA do zero — é a TI definir o perímetro (ferramentas autorizadas, regras de dado, permissões) antes de o negócio começar a construir dentro dele.
  • O ponto de maior risco não é o piloto isolado; é o momento em que a meta formal aprovada pela diretoria pressiona a operação a escalar mais rápido do que a estrutura de dados e responsabilidade consegue acompanhar.

Por que a IA está chegando agora a setores como mineração, siderurgia e indústria química?

Esses setores não estavam ausentes da IA por decisão estratégica — estavam fora do radar dos fornecedores de tecnologia, que historicamente priorizaram bancos, varejo e empresas de tecnologia como primeiros clientes. O salto de 82% no número de segmentos que adotaram alguma solução de IA em 2026, segundo a HRTech, reflete menos uma revolução tecnológica súbita nesses setores e mais a maturidade de ferramentas que não exigem mais uma equipe de dados dedicada para funcionar: agentes conversacionais, automação documental e copilotos que operam dentro de aplicativos que o time de negócio já usa.

Isso muda o perfil de quem decide. Antes, IA era pauta de TI ou de um comitê de inovação central. Agora, um gerente de operação numa planta industrial ou uma coordenação de admissão hospitalar pode montar um piloto sem depender de uma fila de desenvolvimento. É bom para velocidade — e é exatamente o ponto em que a governança precisa entrar antes, não depois.

Sua empresa tem meta de IA. Ela tem governança para sustentar essa meta?

Na maioria dos casos, não — e isso não é exclusividade de setor novo em tecnologia. O hiato entre 87% de otimismo e 27% de governança madura, medido pela Deloitte, aparece de forma parecida em setores que já usam IA há anos. A diferença é o custo do erro: numa operação industrial ou numa unidade de saúde, uma decisão automatizada mal supervisionada não gera só uma reclamação de cliente — pode gerar risco operacional, sanitário ou regulatório concreto.

Governança madura, nesse contexto, não significa comitê grande nem cargo novo. Significa três coisas objetivas: um responsável de negócio nomeado para cada aplicação de IA em produção (não “a área de TI”, uma pessoa); uma regra clara de que dado pode alimentar aquele processo e qual não pode; e uma métrica de resultado acompanhada desde o piloto, não só no relatório trimestral. Sem isso, a meta formal de 68% das empresas vira estatística de intenção, não de capacidade.

Como estruturar governança mínima sem montar uma área de compliance de IA do zero?

A metodologia que a HAIA usa no programa AMPLIFICA parte de uma inversão simples: a TI não aprova cada caso de uso individualmente — ela define o perímetro uma vez (quais ferramentas estão autorizadas, quais regras de dado e LGPD se aplicam, quais permissões existem) e o time de negócio constrói dentro desse perímetro, sem precisar abrir chamado para cada ideia. O primeiro passo do programa é sempre um diagnóstico conjunto de ecossistema e governança, feito antes de qualquer construção começar — não depois.

Um exemplo real e anonimizado ilustra o padrão: numa operação de educação com processos de licitação, um executivo da área de negócio, sem equipe de desenvolvimento, construiu uma ferramenta no-code para extrair cerca de 25 campos de editais em PDF — o protótipo funcional ficou pronto em 35 minutos, dentro do perímetro de ferramentas já aprovadas pela TI, e a análise da operação indicou que até 7 de 20 profissionais tinham atividades automatizáveis por essa mesma lógica. O padrão se repete nas rodadas de capital mais recentes do mercado brasileiro de IA: o que vira resultado é aplicação vertical, com dono e processo definidos — não a ferramenta em si. Os resultados desse tipo de programa variam conforme o contexto, a maturidade e os processos de cada organização; não constituem promessa de resultado equivalente em outros ambientes.

Para um setor que nunca teve exposição a esse tipo de risco, o erro mais comum não é técnico — é organizacional: aprovar a meta de IA na diretoria sem antes decidir quem responde pelo resultado e pelo dado de cada aplicação que sai do piloto.

Perguntas frequentes

IA em setores como mineração e siderurgia é viável sem grande investimento em tecnologia?

Sim, na maioria dos casos de aplicação inicial. Ferramentas de IA agêntica e automação documental hoje operam dentro de plataformas que a empresa já usa (e-mail, planilhas, ERPs), sem exigir infraestrutura nova. O investimento real não está na tecnologia — está no tempo de diagnosticar o processo certo e definir quem responde pelo resultado antes de escalar.

Minha empresa não tem equipe de TI grande. Como aplicar IA com segurança?

O caminho mais seguro é a TI (ou quem cumpre esse papel, mesmo informalmente) definir uma vez quais ferramentas e regras de dado são permitidas, e o time de negócio construir dentro desse perímetro. Isso evita tanto o excesso de burocracia quanto a dispersão de ferramentas sem controle — os dois extremos que mais gera risco em empresas sem estrutura de compliance dedicada.

Qual o primeiro passo antes de aprovar uma meta formal de IA?

Um diagnóstico de ecossistema e governança, feito antes de qualquer construção começar. Ele mapeia quais ferramentas já estão em uso informal na empresa, quais dados podem circular por elas e onde estão os maiores gargalos operacionais. Aprovar meta sem esse diagnóstico é o principal motivo pelo qual otimismo executivo (87%) e governança real (27%) ficam tão distantes.

Quanto tempo leva para ver o primeiro resultado de um piloto de IA nesses setores?

Em programas estruturados, as primeiras automações costumam entrar em operação ainda durante o piloto, com validação de resultado ao final dele — não meses depois. O prazo exato depende do processo escolhido e da qualidade do dado disponível; setores que nunca organizaram esse dado tendem a levar mais tempo na etapa de diagnóstico do que na etapa de construção.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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