IA fragmentada nas empresas: por que só 6% orquestram um processo de ponta a ponta

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Resposta direta: sua empresa provavelmente já usa inteligência artificial em mais de uma área — e ainda assim não tem um único processo automatizado de ponta a ponta. Segundo levantamento da Pipefy divulgado nas últimas semanas, 71% das empresas brasileiras usam IA hoje: 40% em tarefas de rotina, 31% de forma recorrente em processos específicos. Mas apenas 6% conseguem operar um processo inteiro orquestrado pela tecnologia, do início ao fim, sem intervenção manual entre as etapas.

A distância entre esses dois números — não a adoção em si — é onde está o próximo ciclo de decisão para a empresa de médio porte. A mesma pesquisa aponta as três barreiras mais citadas: dificuldade de integração com sistemas legados (35%), customização onerosa e dependente de projetos longos de TI (30%) e falta de orquestração entre as próprias ferramentas de IA já compradas (16%). O resultado prático: 41% das empresas vivem o que a pesquisa chama de “ilhas de automação” — pontos isolados de IA que resolvem uma dor local, mas não trocam dado nem decisão com o resto do processo.

Principais aprendizados

  • 71% das empresas brasileiras já usam IA, mas só 6% orquestram um processo de ponta a ponta — a adoção deixou de ser o gargalo real.
  • As três barreiras mais citadas são técnicas e organizacionais, não falta de ferramenta: integração com sistemas legados, customização dependente de projeto longo de TI e falta de orquestração entre as ferramentas já adotadas.
  • 41% das empresas operam em “ilhas de automação”: IA que resolve uma etapa, mas não se conecta ao restante do fluxo de trabalho.
  • Orquestrar um processo não é comprar mais uma ferramenta — é redesenhar o fluxo com dono nomeado, dado confiável e critério de decisão definidos antes de conectar os pontos.
  • Empresas de médio porte, sem equipe de dados dedicada, tendem a ganhar mais orquestrando o que já têm do que comprando uma nova plataforma de ponta a ponta.

Por que ter IA em várias áreas não é o mesmo que ter um processo automatizado?

Porque adoção mede presença de ferramenta, não conexão entre etapas. Uma empresa pode ter IA generativa no atendimento, um copiloto na área jurídica e um modelo de score no financeiro — três iniciativas reais, três resultados possivelmente bons isoladamente — e ainda assim não ter nenhum processo de ponta a ponta automatizado, porque nenhuma dessas três iniciativas troca dado ou decisão com as outras. É exatamente o padrão que a pesquisa da Pipefy descreve: 40% das empresas usam IA em tarefas pontuais, mas cada tarefa vive no seu próprio silo.

Isso também aparece em outro levantamento recente sobre adoção no Brasil, que mostra 58% das empresas ainda em estágio básico de maturidade em IA e apenas 15% em estágio avançado — a maioria não fica presa por falta de acesso a modelo, mas por não ter redesenhado o processo ao redor da IA. Ferramenta nova em processo velho produz automação de etapa, não transformação de fluxo. Já tratamos aqui por que o dado — não o orçamento — costuma ser o primeiro gargalo quando esse redesenho não acontece: sem uma fonte confiável de informação atravessando as etapas, não há o que orquestrar.

Que integração resolver primeiro para sair da ilha de automação?

A que tiver a combinação mais alta de frequência, tempo consumido e retrabalho gerado pela falta de conexão entre etapas — não a que parece tecnicamente mais interessante. Esse é o critério que usamos em diagnósticos de maturidade: mapear onde o processo já tem IA em pontos isolados e identificar em qual junção entre essas ilhas a falta de integração custa mais caro, seja em tempo de time, seja em erro que vira retrabalho.

Em um diagnóstico recente conduzido pela HAIA numa operação de serviços financeiros de médio porte, a dor não estava na falta de IA — a empresa já tinha automações pontuais para análise de crédito, checagem documental e controles de risco. O gargalo era a ausência de orquestração entre essas três frentes: cada uma decidia por conta própria, sem visibilidade cruzada. A estruturação de um fluxo único, com regra de negócio compartilhada entre as três automações, permitiu operar em maior escala sem aumento proporcional de equipe, reduziu consultas de crédito desnecessárias e passou a monitorar continuamente o cumprimento de SLAs regulatórios — resultado validado ao longo do programa, com 106 avaliações internas e predominância de nota máxima. Como em qualquer caso, os resultados variam conforme o contexto, a maturidade e os processos de cada organização; não são garantia de resultado equivalente em outro ambiente.

O padrão se repete fora do setor financeiro: o mesmo checklist que separa um agente de IA pronto para produção de um piloto que nunca escala — processo priorizado, métrica definida antes do piloto, responsável de negócio nomeado — é o que decide se a próxima automação vira parte de um processo orquestrado ou mais uma ilha isolada.

Dá para orquestrar processos com IA sem abrir um projeto longo de TI?

Sim, dentro de um perímetro — e essa é a decisão que mais gera atrito desnecessário entre negócio e TI. A pesquisa da Pipefy aponta que 30% das empresas travam justamente porque tratam qualquer integração como projeto de TI de meses. Na prática, boa parte da orquestração entre ilhas de automação não exige trocar sistema legado nem contratar desenvolvimento novo: exige que a TI defina o perímetro de ferramentas e dados já autorizados — o que pode ser acessado, com qual nível de anonimização, sob qual regra de LGPD — e que o time de negócio construa a conexão entre os pontos dentro desse perímetro, com as ferramentas que a empresa já paga.

É a lógica que sustenta o programa AMPLIFICA da HAIA: o time da própria área constrói agentes e automações para os gargalos que conhece, usando Google Workspace, Microsoft Copilot, OpenAI, Claude ou instâncias privadas já aprovadas — sem contratação de novo software e sem entrar na fila de demandas de TI. O ganho não é só velocidade: é o time que sente a dor todos os dias definindo a regra de negócio da automação, em vez de uma especificação repassada para terceiros. Em programas conduzidos nesse formato, uma equipe de tecnologia de médio porte estruturou em semanas um mapeamento de lacunas de qualidade e segurança que um plano formal mais longo não havia produzido — de novo, resultado observado num contexto específico, não uma promessa padrão.

Perguntas frequentes

O que é uma “ilha de automação” de IA?

É um ponto de inteligência artificial que resolve uma etapa isolada do processo, mas não troca dado nem decisão com as demais etapas do fluxo de trabalho. Uma empresa pode ter várias ilhas — atendimento, jurídico, financeiro — cada uma funcionando bem sozinha, sem que isso resulte em um processo de ponta a ponta orquestrado. É o padrão predominante hoje: 41% das empresas brasileiras vivem essa situação, segundo a pesquisa da Pipefy.

Orquestrar IA de ponta a ponta exige trocar sistemas legados?

Na maioria dos casos, não. O gargalo mais citado é integração com sistemas legados, mas isso normalmente se resolve conectando o que já existe dentro de um perímetro de governança definido pela TI, não substituindo o ERP ou o CRM. Trocar sistema é a exceção, reservada a casos em que a própria base de dados é inconsistente demais para sustentar qualquer automação — nesse caso, o problema é de dado, não de orquestração.

Ter IA em várias áreas da empresa já é sinal de maturidade?

Não necessariamente — presença de ferramenta e maturidade são coisas diferentes. Maturidade é a capacidade de gerar valor de forma consistente e conectada, com dono, dado confiável e métrica acompanhada desde o piloto. Uma empresa com IA em cinco áreas isoladas pode ter menos maturidade real do que uma empresa com IA orquestrada em um único processo crítico, porque a segunda sabe medir e sustentar o resultado.

Por onde uma empresa de médio porte deve começar a orquestrar processos com IA?

Pelo levantamento das ilhas de automação já existentes e pela priorização da junção entre elas que mais custa em frequência, tempo e retrabalho — não por uma nova compra de ferramenta. O primeiro passo é diagnóstico, não implementação: mapear o que já roda, onde a informação para de fluir entre etapas, e nomear um responsável de negócio antes de conectar qualquer coisa.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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