IA como ativo ou como custo: a régua que o mercado de M&A já usa

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Tratar IA como ativo significa construir cada iniciativa de inteligência artificial para que ela possa ser documentada, transferida e auditada — e não apenas paga todo mês. Essa é a diferença entre uma IA que aumenta o valor da empresa e uma que só aparece na conta de custo. O mercado de fusões e aquisições já faz essa distinção com dinheiro na mesa, e a régua que ele aplica serve para qualquer empresa decidir onde colocar o próximo real de orçamento.

Os números de 2025 deixam o movimento claro. Segundo a Bain & Company, o valor das transações em tecnologia cresceu 77% no ano, com a IA generativa apontada como o principal fator dessa aceleração. A pesquisa trimestral da KPMG registrou 1.581 transações no Brasil — praticamente estável em volume ante 2024 —, mas com fundos de private equity e venture capital saltando de 43% para 50% de participação. Ou seja: menos negócios movidos por escala, mais negócios movidos por capacidade.

O detalhe que interessa a quem não está à venda: o comprador não paga um prêmio por “ter IA”. Ele paga por IA que consegue auditar, transferir e continuar operando depois que a equipe original sai. Essa é uma régua de qualidade, não de vitrine — e serve para qualquer empresa decidir onde colocar o próximo real de orçamento.

Principais aprendizados

  • Em M&A de tecnologia, capacidade de IA virou o principal fator de prêmio de valuation — o valor das transações em tech subiu 77% em 2025, com a IA generativa como acelerador declarado.
  • O comprador não paga por “usar IA”. Paga por IA documentada, com dono nomeado, métrica de resultado e independência de fornecedor único.
  • A mesma régua funciona para quem não vai vender: ela separa a iniciativa que vira patrimônio da que vira só custo mensal de licença e de horas internas.
  • Uma solução de IA que só funciona enquanto a pessoa que a montou está por perto não é ativo — é risco concentrado, e o mercado desconta isso no preço.
  • Transformar iniciativa em ativo é decisão de projeto, tomada no início: o que documentar, quem responde, qual número medir e como não depender de um fornecedor só.

O que o comprador paga quando paga por “capacidade de IA”?

Depois de mais de 30 anos de carreira em tecnologia, boa parte deles do lado de quem avalia sistemas antes de uma decisão de investimento, a lista do que é olhado numa due diligence de IA é curta e repetitiva.

Primeiro, documentação que sobrevive à saída das pessoas. Qual problema a solução resolve, com quais dados, quais decisões ela toma sozinha e quais deixa para o humano. Se isso só existe na cabeça de dois engenheiros, o comprador trata como passivo, não como ativo.

Segundo, um dono nomeado. Uma pessoa — não um comitê — com mandato para ajustar, pausar ou desligar a solução. Sem isso, ninguém consegue responder o que acontece quando o modelo erra em produção.

Terceiro, um número de resultado medido antes e depois. Custo que caiu, tempo que encolheu, erro que diminuiu, receita que apareceu. “A equipe gosta de usar” não entra na conta de valuation.

Quarto, independência de um fornecedor único. Uma arquitetura que permite trocar o modelo por baixo sem reescrever tudo vale mais do que uma amarrada a um contrato que pode mudar de preço ou de política a qualquer momento.

Por que tratar IA como ativo importa mesmo para quem não vai vender?

Porque a régua do comprador é, na prática, uma régua de governança de IA — e ela responde a uma pergunta que todo decisor faz: esse projeto está construindo algo que fica, ou estou pagando aluguel para sempre?

A maioria das iniciativas de IA em empresa de médio porte hoje é aluguel. Licença mensal, mais horas internas de configuração e operação que quase nunca entram no cálculo, mais um resultado que ninguém mediu. Quando o fornecedor sobe o preço ou o funcionário-chave sai, não sobra patrimônio — sobra a necessidade de recomeçar. A Gillian tratou do outro lado dessa conta no blog dela, sobre quanto vale a IA que a sua empresa já construiu.

Vi os dois cenários no mesmo tipo de operação. Num grupo com equipe de campo espalhada pelo país, duas soluções de IA nasceram no mesmo semestre. Uma virou dependência de uma pessoa: quando ela mudou de área, a automação parou e ninguém sabia religar. A outra tinha um documento de uma página, um responsável e um painel com o tempo de resposta antes e depois. Um ano depois, só a segunda ainda rodava — e já tinha sido copiada para outra região.

A diferença não foi tecnologia. Foi decidir, no início, que aquilo seria um ativo.

Como transformar uma iniciativa de IA em ativo — em quatro perguntas

Antes de aprovar ou renovar um projeto de IA, quatro perguntas resolvem a maior parte do problema. Todas com resposta escrita, não verbal.

1. Se as duas pessoas que conhecem essa solução saírem no mesmo mês, a empresa consegue continuar operando? Se a resposta é não, falta documentação — e esse é o primeiro trabalho, não um detalhe para depois.

2. Quem é o dono? Nome de uma pessoa, com autoridade para mexer no escopo e para desligar. Comitê não conta como dono.

3. Qual número essa iniciativa move, e ele foi medido antes de ligar a IA? Sem linha de base, não há como provar valor depois — o assunto vira opinião. Vale a leitura do nosso texto sobre por que a maioria das empresas não consegue medir o retorno da IA.

4. Se o fornecedor do modelo dobrar o preço amanhã, qual é o plano? Se não existe plano, a empresa não tem um ativo — tem uma conta que outra pessoa controla.

E as iniciativas de IA que já rodam? Como saber se viraram ativo ou custo?

Faça o inventário. Liste toda ferramenta de IA em uso hoje, paga ou gratuita, oficial ou informal, e passe cada uma pelas quatro perguntas acima. O exercício leva algumas horas e costuma revelar três grupos.

O primeiro grupo já é ativo: tem dono, documento e número. Esse você protege e, se fizer sentido, replica para outra área.

O segundo grupo é custo disfarçado de ativo: roda, alguém paga, ninguém mede. Aqui a decisão é binária — ou você investe as horas para documentar e medir, ou corta. Manter no meio-termo é o pior dos mundos.

O terceiro grupo é risco: automação crítica que depende de uma pessoa e não tem registro de nada. Esse é o que aparece como desconto numa avaliação externa — e como incidente numa terça-feira qualquer. Prioridade máxima para documentar.

Esse inventário conversa diretamente com o trabalho de definir o que um agente decide sozinho antes de dar autonomia a ele: os dois começam pela mesma pergunta sobre quem responde quando a IA age.

Perguntas frequentes

O que significa tratar IA como ativo?

Significa que a iniciativa de IA tem documentação que sobrevive à saída das pessoas, um dono nomeado, um número de resultado medido antes e depois, e independência de um fornecedor único. Sem esses quatro elementos, a IA funciona como despesa recorrente — não como patrimônio que aumenta o valor da empresa.

Por que a IA generativa está movendo o valuation em fusões e aquisições?

Porque, segundo a Bain & Company, o valor das transações em tecnologia cresceu 77% em 2025 com a IA generativa como principal acelerador. O comprador paga prêmio por capacidade de IA que consegue auditar e continuar operando após a aquisição — não pelo simples fato de a empresa usar ferramentas de IA.

Minha empresa não pretende ser vendida. Essa régua ainda serve?

Sim. A régua que o comprador aplica é uma régua de governança e de qualidade: ela responde se um projeto de IA está construindo algo que fica ou se é aluguel permanente. Serve para decidir onde colocar orçamento, o que renovar e o que cortar, independentemente de qualquer intenção de venda.

Por onde começar se já tenho várias ferramentas de IA em uso?

Faça um inventário de tudo que está em uso e passe cada item por quatro perguntas: a operação continua se as pessoas-chave saírem; existe um dono nomeado; qual número a iniciativa move e se ele foi medido antes; e qual é o plano se o fornecedor mudar preço ou política. O resultado separa o que é ativo, o que é custo disfarçado e o que é risco a documentar com urgência.

Sou Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA. Trabalho com tecnologia há mais de 30 anos e com IA conversacional desde 2011, e boa parte da minha carreira foi avaliar sistemas antes de uma decisão de investimento. Se a sua empresa tem iniciativas de IA rodando e ninguém sabe dizer se elas viraram ativo ou só custo, fale com a HAIA — o inventário é um bom lugar para começar.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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