Para uma indústria de médio porte, a pergunta não é se vale a pena esperar o marco legal da IA sair do papel antes de investir — é não esperar. A regulação específica não deve avançar tão cedo quanto o discurso sugere, e boa parte do que uma política de governança de IA exige já está coberta pela LGPD hoje. Enquanto isso, os números mostram um setor que avançou rápido na adoção, mas ainda concentrado nas áreas mais fáceis de automatizar — não necessariamente nas que geram mais valor.
Segundo o IBGE, a fatia de empresas industriais brasileiras que usa IA saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024 — mais que dobrou em dois anos. O uso está concentrado em atividades administrativas, comercialização e desenvolvimento de produto, não no chão de fábrica. No mesmo período, a CNI colocou o PL 2.338/2023 (o marco legal da IA) como prioridade na sua agenda legislativa para 2026, numa posição que o próprio setor descreve como “convergente com ressalvas” — a principal crítica é ao modelo de remuneração de direitos autorais previsto no texto. Ou seja: a indústria já dobrou a adoção sem esperar a lei, e agora está ajudando a escrever a lei que ainda não chegou.
Principais aprendizados
- A adoção de IA na indústria brasileira mais que dobrou em dois anos (16,9% para 41,9%, IBGE), mas ainda é minoria — e concentrada em atividades administrativas e comerciais, não na operação core.
- O setor industrial já pede ajustes no marco legal da IA (PL 2.338/2023) por meio da CNI, mas isso não acelera a votação — a expectativa de qualquer avanço na Câmara continua sendo depois das eleições, repetindo adiamentos de anos anteriores.
- Esperar a lei específica para começar a tratar governança de IA é decisão equivocada: a LGPD já exige base legal para tratamento de dado, limitação de finalidade e explicação de decisão automatizada — a maior parte do esqueleto de uma política de IA.
- O critério que separa quem converte adoção em resultado não é o porte nem o setor — é ter um processo priorizado por frequência × tempo × retrabalho, dado minimamente confiável para aquele processo específico, e dono de negócio acompanhando a métrica desde o piloto.
- Caso real (anonimizado): uma operação de serviços financeiros de médio porte estruturou automações de IA para crédito, documentação e controles de risco, reduzindo consultas de crédito desnecessárias e passando a monitorar continuamente SLAs regulatórios — resultado avaliado com nota máxima predominante em 106 avaliações internas do programa.
Por que esperar o marco legal da IA sair do papel é uma estratégia ruim para a indústria?
Porque a lei não deve sair tão cedo quanto o calendário político sugere. O PL 2.338/2023 segue sem data de votação na Câmara desde que foi aprovado pelo Senado, e mesmo dentro do próprio setor industrial — que agora pressiona por ajustes via CNI — não há expectativa de desfecho antes do fim do ciclo eleitoral. Uma empresa que trata “esperar a lei” como estratégia de governança está, na prática, escolhendo não ter governança por um prazo indefinido.
A alternativa não é inventar regras: é aplicar o que já é obrigatório. A LGPD já cobre base legal para tratamento de dado pessoal, limitação de finalidade, retenção e — no artigo que trata de decisões automatizadas — o direito do titular a solicitar revisão. Isso é suficiente para sustentar uma política mínima de uso de IA em qualquer indústria de médio porte hoje, sem depender de um texto que ainda está em disputa sobre direitos autorais e modelo de remuneração.
Onde a indústria brasileira já está usando IA — e o que isso revela sobre prioridade?
O uso está concentrado em atividades administrativas, comercialização e desenvolvimento de produto — exatamente onde o dado já é mais estruturado e o processo já é mais repetitivo, não necessariamente onde o valor financeiro é maior. Isso confirma um padrão que a HAIA observa em projetos de diagnóstico: a primeira onda de adoção segue a facilidade de implementação, não a prioridade de negócio. É natural e não é um erro — mas significa que boa parte da indústria ainda não decidiu, de forma deliberada, onde a IA deveria entrar primeiro.
O critério prático para corrigir essa ordem é simples de enunciar e difícil de aplicar sem método: priorizar processos por frequência × tempo × retrabalho, não por quem pede primeiro ou por onde o dado já está pronto. Em um programa de automação conduzido pela HAIA numa operação de serviços financeiros de médio porte, esse critério levou a automações de crédito, documentação e controles de risco — reduzindo consultas de crédito desnecessárias e permitindo monitoramento contínuo de SLAs regulatórios, com nota máxima predominante nas 106 avaliações internas do programa. Os resultados refletem o contexto, a maturidade e os processos daquela organização específica e não constituem promessa de resultado equivalente em outro ambiente — mas o critério de priorização é transferível para qualquer indústria que ainda trate adoção de IA como lista de pedidos, não como decisão de alocação de orçamento.
Como montar governança de IA na indústria sem lei específica, usando o que já é obrigatório hoje?
Três elementos bastam para começar, e nenhum deles depende do PL 2.338/2023: um dono de negócio nomeado para cada processo automatizado (não a TI sozinha, não um comitê sem responsável único); um mapeamento de que dado alimenta cada automação e sob qual base legal da LGPD ele está sendo tratado; e uma métrica de valor acompanhada desde o piloto — não só depois da escala.
O erro mais comum nesse ponto não é a ausência de regra, é o excesso de controle paralisante na ausência de uma lei clara: comitês que travam qualquer piloto até “a regulação se definir”, o que na prática significa nunca. Governança deveria acelerar a captura de valor, não burocratizá-la — e isso vale tanto para a empresa que já automatizou 42% dos seus processos administrativos quanto para a que ainda não começou.
Perguntas frequentes
O marco legal da IA (PL 2.338/2023) já foi aprovado no Brasil?
Não. O projeto foi aprovado pelo Senado há mais de um ano e segue na Câmara dos Deputados sem data de votação. A própria indústria, pela CNI, já cobra ajustes no texto — principalmente no modelo de remuneração de direitos autorais —, mas isso não antecipa o calendário: a expectativa é que qualquer votação só ocorra depois do atual ciclo eleitoral.
Minha indústria precisa esperar a lei para usar IA com segurança jurídica?
Não. A LGPD já exige base legal para tratamento de dado, limitação de finalidade e explicação de decisões automatizadas — o essencial de uma política de governança de IA. Esperar o marco legal específico para começar significa operar sem nenhuma governança por um prazo indefinido, não significa segurança jurídica maior.
Quais áreas da indústria já usam mais IA no Brasil?
Segundo o IBGE, o uso está concentrado em atividades administrativas, comercialização e desenvolvimento de produto — não na operação core ou no chão de fábrica. Isso reflete facilidade de implementação, não necessariamente onde está o maior valor financeiro, e é um sinal de que a priorização ainda não foi feita de forma deliberada na maioria das empresas.
Por que a CNI quer mudar o marco legal da IA antes mesmo de ele ser votado?
Porque o texto atual prevê um modelo de remuneração de direitos autorais que a indústria considera problemático para o uso de dado e conteúdo em sistemas de IA. A CNI classificou o PL 2.338/2023 como prioridade na agenda legislativa de 2026 com posição “convergente com ressalvas” — apoio à ideia, mas pedido explícito de ajuste nesse ponto específico.