Investimento público em IA no Brasil: por que ele não resolve o gargalo da sua empresa

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Nas últimas semanas, o governo brasileiro sancionou o Redata — regime que isenta por até cinco anos tributos como Imposto de Importação, PIS/Cofins e IPI sobre equipamentos de data center voltados a computação em nuvem e inteligência artificial, com renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões só em 2026 — e destinou até R$ 500 milhões públicos, via BNDES e Finep, a um fundo de capital de risco para startups que têm IA no núcleo do próprio negócio. É dinheiro real e política industrial concreta, não apenas discurso. Mas para a empresa de médio porte que já usa IA no dia a dia, ou está decidindo se deve usar, esse pacote resolve exatamente zero do problema que hoje trava o retorno: qualidade de dado e processo sem dono definido.

A prova está na própria pesquisa que ajuda a explicar por que esse investimento público estava sendo pedido. Um estudo global da SAP com a Oxford Economics mostra que 75% das empresas brasileiras apontam qualidade de dado — não custo de infraestrutura, não acesso a modelo — como a principal barreira para captar retorno de IA agêntica, mesmo com investimento médio já em US$ 20,8 milhões por ano entre as empresas líderes pesquisadas. O gargalo nunca foi dinheiro. Direcionar mais capital para infraestrutura ajuda quem constrói e opera data center; não ajuda, por si só, quem ainda não sabe se o dado que alimenta o próprio processo é confiável.

Principais aprendizados

  • O Redata isenta por até cinco anos tributos sobre equipamentos de data center e IA, com renúncia fiscal estimada em R$ 5,2 bilhões em 2026 — é política de oferta (infraestrutura), não de demanda (capacidade das empresas de usar IA na prática).
  • BNDES e Finep escolheram a gestora Monashees para administrar um fundo de capital de risco de até R$ 500 milhões voltado a startups com IA no núcleo do negócio — outro sinal de que o investimento público mira o ecossistema de fornecedores, não diretamente a empresa usuária final.
  • Pesquisa da SAP com a Oxford Economics mostra 75% das empresas brasileiras citando qualidade de dado como principal barreira ao retorno de IA, mesmo com investimento médio de US$ 20,8 milhões/ano entre as líderes pesquisadas — o gargalo é interno, não de acesso a capital ou a modelo.
  • A pesquisa oficial mais recente do Cetic.br/NIC.br mede 17% de adoção de IA entre empresas brasileiras, bem abaixo dos 50%–95% que aparecem em levantamentos de fornecedores e consultorias — um lembrete de que a régua real de quem já resolveu dado e processo é mais baixa do que o noticiário sugere, e a oportunidade, proporcionalmente, maior.
  • Investimento público em infraestrutura muda o custo de quem fornece IA; não substitui o diagnóstico interno de dado, processo e dono de decisão que determina se a sua empresa converte esse investimento em resultado mensurável.

O Redata e o fundo do BNDES/Finep mudam o momento certo da minha empresa investir em IA?

Não diretamente. Os dois movimentos miram o lado da oferta — infraestrutura de data center e startups fornecedoras de tecnologia — não o lado da demanda, que é a capacidade da sua empresa de aplicar IA a um processo específico e medir o resultado. A isenção fiscal do Redata pode, com o tempo, reduzir o custo repassado por provedores de nuvem e IA; o fundo do BNDES/Finep pode, em alguns anos, aumentar a oferta de ferramentas verticais mais baratas. Nenhum dos dois altera o cronograma de diagnóstico que sua empresa precisa fazer hoje.

Se a sua empresa não constrói infraestrutura de IA nem é fornecedora de tecnologia, esse pacote é, na prática, irrelevante para o seu calendário de decisão. O risco é justamente o oposto do que a manchete sugere: usar o anúncio como gatilho emocional para acelerar um investimento que ainda não tem diagnóstico de dado, processo e dono de decisão por trás — trocando um problema de timing por um problema de execução.

Por que 75% das empresas apontam qualidade de dado como o problema, mesmo investindo dezenas de milhões por ano?

Porque investir em ferramenta ou modelo não cria, por si só, dado confiável nem processo bem definido — isso exige diagnóstico e redesenho deliberado, feito antes da automação entrar em produção, não depois. É o padrão que vejo se repetir quando conduzimos diagnóstico de ecossistema com times de negócio de empresas de médio porte: a etapa que mais reduz risco de projeto não é a escolha da ferramenta de IA. É mapear os gargalos reais do processo por frequência, tempo consumido e retrabalho gerado, e só então decidir onde automatizar primeiro.

Em uma operação de serviços financeiros de médio porte, por exemplo, automações aplicadas a crédito, documentação e controles de risco permitiram ganhar escala sem aumento proporcional de equipe, reduzir consultas de crédito desnecessárias e manter monitoramento contínuo de prazos regulatórios — resultados que, como em qualquer caso citado publicamente, variam conforme o contexto, a maturidade e os processos de cada organização. O padrão que se repete não é o tamanho do orçamento: é ter, antes do piloto, um responsável nomeado pelo processo e um critério claro do que conta como sucesso.

Se a régua real de adoção de IA no Brasil é só 17%, vale a pena esperar a maioria adotar antes de investir?

Não — e o próprio número sugere o contrário do que parece à primeira vista. A pesquisa TIC Empresas do Cetic.br/NIC.br, referência oficial mais recente sobre o tema, estima 93,5 mil empresas brasileiras usando IA, uma alta de 13% para 17% em um ano. É um salto real, mas está longe dos 50%–95% que aparecem em pesquisas privadas de fornecedores e consultorias — que costumam usar amostras menores, mais concentradas em empresas já engajadas com IA, e perguntas sobre intenção de uso, não necessariamente sobre processo em produção com resultado medido.

Isso não invalida os números maiores: eles medem outra coisa, mais próxima de interesse e experimentação do que de adoção estrutural. Mas para quem decide orçamento, a implicação prática é que a maioria estrutural do mercado brasileiro — mesmo entre empresas grandes, que saltaram de 38% para 50% de adoção segundo o mesmo levantamento — ainda não fez a transição. Como já mostramos ao analisar por que o investimento em IA sobe 46% e mesmo assim 75% das empresas seguem travadas no mesmo gargalo de dados, esperar o mercado amadurecer para só então agir significa abrir mão exatamente da janela em que diagnosticar dado e processo antes da maioria vira vantagem competitiva, não apenas prudência.

Perguntas frequentes

O Redata beneficia diretamente empresas que só usam ferramentas de IA, sem construir infraestrutura própria?

Não diretamente. O Redata isenta tributos sobre equipamentos de data center e IA para quem constrói ou opera essa infraestrutura — provedores de nuvem, operadores de data center, fornecedores de tecnologia. Uma empresa de médio porte que apenas contrata ferramentas de IA como usuária final pode, no máximo, sentir um efeito indireto de médio prazo se esse custo menor for repassado pelo fornecedor — não é um benefício fiscal que ela pleiteia diretamente.

A pesquisa do Cetic.br, com 17% de adoção, invalida os números de 50%–95% que aparecem em outras pesquisas sobre IA no Brasil?

Não invalida — mede uma coisa diferente. O Cetic.br/NIC.br usa metodologia e amostra mais próximas do universo real de empresas brasileiras, capturando adoção estrutural e em produção. Pesquisas privadas de fornecedores tendem a amostrar empresas já engajadas com IA e a medir intenção ou experimentação, não necessariamente processo maduro em produção — por isso os números são tão mais altos.

Investir em diagnóstico de dado e processo antes de expandir o uso de IA atrasa o projeto?

Não atrasa — evita um retrabalho maior depois. Pular direto para a ferramenta sem mapear qual processo tem mais frequência, tempo consumido e retrabalho, e sem checar se o dado que alimenta esse processo é confiável, é o padrão mais comum por trás de pilotos que não chegam à produção. O diagnóstico inicial custa dias; corrigir um piloto mal escopado depois custa meses.

Empresas de médio porte deveriam esperar o fundo do BNDES/Finep gerar mais startups de IA acessíveis antes de agir?

Não. Esse fundo tem horizonte de maturação de anos — passa por due diligence, aporte, desenvolvimento de produto e só depois chega ao mercado como solução comprável. Esperar esse ciclo significa adiar indefinidamente um diagnóstico que pode começar agora, com os dados e processos que a empresa já tem, independentemente de qual fornecedor estará disponível daqui a dois ou três anos.

Gillian Pellegrino, fundadora da HAIA

Sobre a autora

Gillian Pellegrino

Fundadora da HAIA, consultoria executiva de IA. Executiva com mais de 30 anos liderando tecnologia e operações em grandes corporações, apoia líderes na transformação da pressão por IA em resultado mensurável — com estratégia, governança e o humano no comando.

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